
Mega Driver é uma banda brasileira dedicada a criação de versões heavy-metal dos temas de grandes clássicos de vídeo-games. Desse forma, eles se tornaram os idealizadores do estilo “ game metal” que tem como principal objetivo homenagear os jogos e compositores que trabalharam em trilhas sonoras.
O nome da banda já é uma homenagem dos integrantes à paixão que nutrem por games desde que eram moleques.
Em um bate papo on-line superdescontraído com o vocalista da banda Mega Driver, Antonio Tornisiello, mais conhecido como Nino Mega Driver,ele conta um pouco de como tudo começou, a história e trajetória da banda que faz muito marmanjo voltar para a infância. No set list de Metal For Gamers – último CD da banda – estão: “Axe Tales”, em estilo clássico inspirada no jogo “Golden Axe”; “Blood Symphony”, com temas agressivos baseados na série “Castlevania”, e “Mad Racer”, transpondo toda a emoção de jogar e ouvir a trilha sonora de “Top Gear”. Divirta-se!

Nino Mega Driver e sua guitarra de Sonic
De onde surgiu a ideia de tocar musicas de temas de games?
Desde que comecei a jogar videogames também curtia heavy metal. O primeiro disco de uma banda que comprei foi no início dos anos 90, aos 12 anos de idade, hoje tenho 32. Era até comum escutar alguma banda no aparelho de som ao fundo, enquanto jogava videogame. Na era dos 8 e 16 bits, o som dos jogos eram limitados ao “chip” de áudio dos consoles. Então, quando comecei a tocar guitarra, reparei a semelhança que algumas músicas dos jogos tinham com heavy metal. Daí passei a imaginar como aquelas músicas, cheias de “bips” e “bops”, ficariam se tocadas com instrumentos de verdade – com guitarras, baixo e bateria agressiva – e, mais ainda, em estilo metal. Desde então, tentei montar uma banda para tocarmos esta nova ideia, criar um novo estilo, no caso, o game metal. No final de 99, incentivados por alguns amigos, passei a estudar os demais instrumentos e fazer gravações caseiras, “one-man-band”, e colocar na internet, mas, somente em dezembro de 2003, já em uma época emergente da cultura geek, é que consegui retomar a ideia. Em homenagem ao console que mais joguei na adolescência, surgiu a “MegaDriver”.
Tem mais alguém que faz isso no Brasil, fora dele tem, não é?
Orgulhosamente digo que sim! Quando iniciei a jornada em 99, quase não existiam projetos do gênero. Alguns anos depois surgiram duas novas bandas americanas que ficaram conhecidas, Minibosses e Neskimos. Com a popularização da MegaDriver e do “Game Music” muitos outros trabalhos apareceram. Aqui no Brasil, em 2007, surgiu a 8 Bits Instrumental, com uma levada mais genérica, alguns temas em Jazz e outros até mesmo em valsa. Nos Estados Unidos, apareceu a “Powerglove”. Mas é importante ressaltar que o grupo americano “Videogames Live”, liderado por Tommy Tallarico, também é um dos grandes responsáveis por popularizar as músicas de videogames no mundo. Trata-se de uma orquestra que toca as músicas dos jogos com projeção de vídeos via telão. Nós tivemos a oportunidade de participar do Videogames Live, fazendo a abertura do evento, nos anos de 2008, no Rio de Janeiro, e 2009, em São Paulo.
Tem um canal para visualização dos vídeos reunidos, ou só para baixar as músicas?
Nós temos muitos vídeos publicados na internet em nosso canal oficial no YouTube. Mas a grande maioria são vídeos que os fãs fazem, desde aparições ao vivo e alguns com cenas dos jogos. Tem também o site da banda, para mais informações.
Os mega drivers fazem mais alguma coisa no dia a dia? 
Eu, Nino, guitarrista, tenho formação em computação (engenharia e multimídia) e trabalho com engenharia de sistemas. Rubens, nosso baixista, e Jeff, baterista, são web-designers e programadores free-lancer. Tura, guitarrista, e Allan, vocalista, trabalham em áreas administrativas no ramo de metalúrgica.
Vocês são, ou eram viciados em games? Ou só gostam mesmo de tocar os temas?
Muito! Todos nós jogamos muito! Agora mesmo, respondendo esta entrevista, não paro de verificar a Live para ver se a Konami já soltou os novos DLCs do Castlevania – Lords Of Shadow! Todos nós curtimos muito jogar videogames, nós escolhemos tocar as músicas dos games exatamente porque somos fanáticos e gostaríamos de fazer um tributo. Inclusive isto é uma via de regra na banda, nós só fazemos músicas de jogos que alguém na banda curte muito.
Existe algum projeto paralelo a Mega Driver?
As músicas de games são, na maioria, instrumentais. Então, assim como todos os demais projetos de Game Music, nós sempre fizemos músicas instrumentais. Hoje, como existem muitas bandas e projetos de Game Music, nós sentimos a necessidade de inovar. A melhor maneira que enxergamos foi trazendo um vocalista para a banda. A ideia agora é criar novas músicas, com instrumental e letras inspiradas nos jogos. Fazer um som “heavy metal” novo, para pessoas que curtem videogames. Mas não abandonaremos o trabalho tradicional, com músicas instrumentais. Eu e o Rubão nos dedicamos 100% à MegaDriver, mas Allan, Tura e Jeff também tocam em uma banda de power-trash metal chamada Cellmys.
Conversando antes da entrevista, você falou que hoje está popular essa coisa do “nerdismo”, acha que é apenas modismo, ou uma tendência as pessoas gostarem do que antes era considerado “over”?
Isto é algo inevitável. Quem hoje em dia não gostaria de ter um notebook de última geração ou o último modelo de iPhone? A tecnologia faz cada vez mais parte do nosso cotidiano e é uma tendência as pessoas gostarem. Antigamente nós jogávamos videogames, mas também andávamos de skate, jogávamos bola e afins. Hoje as “turminhas” não estão mais na rua brincando, mas sim dentro de uma lan house ou em um ambiente virtual de algum jogo eletrônico. Me lembro que se alguma garota nos visse digitando muito rápido em um computador, soltaria um olhar de reprovação pensando “Nossa! Que nerd!”. Mas hoje até mesmo as adolescentes turbinam seus dedinhos no msn, twitter e outras redes sociais.
Como é o reconhecimento do público, vocês têm muitos fãs?
Dentro do meio “geek” recebemos um ótimo reconhecimento. Temos uma grande popularidade na internet, pois sempre distribuímos nosso material de forma gratuita, através do website da banda. Hoje, orgulhosamente, já ultrapassamos a marca dos 15 milhões de downloads de MP3. Os acessos ao website são de diversos países, sendo as três primeiras posições da China, Estados Unidos e Brasil.
Já dá para ganhar dinheiro com isso, e sobreviver? Vocês já receberam convites de grandes gravadoras ou selos, ou a banda caminha de forma “independente”?
No Brasil, infelizmente, nosso estilo musical ainda é considerado “underground” e os grandes selos não costumam demonstrar interesse. Então, embora tenhamos um boa exposição, ainda somos uma banda independente. Nossos custos muitas vezes são elevados. Por exemplo, nosso website atinge mensalmente a marca dos 300Gb em transferência de dados, devido aos downloads das músicas. Para sobrevivermos e continuarmos a crescer, contamos com doações de fãs e o cachê das apresentações ao vivo. A banda surgiu como um projeto tributo e sem interesses lucrativos, mas com a popularização, sentimos cada vez mais a necessidade da profissionalização. Esta é nossa meta para o futuro, profissionalizar de forma completa a MegaDriver.
Como está, na sua opinião, a questão do indústria fonográfica no Brasil?
Em termos de diversidade e riqueza musical – com instrumental bem elaborado – estamos cada vez piores. As pessoas parecem apenas consumir “enlatados” e até mesmo se submetem a modismos que são praticamente impostos. Em termos de metal é ainda mais complicado, pois nunca tivemos realmente muito espaço. Algumas bandas mais antigas como “Sepultura”, “Sarcofago”, “Angra” e etc, conseguiram seu espaço e são mundialmente conhecidas, mas é difícil citar uma banda de metal brasileira que tenha se consagrado no século 21. Uma grande parcela desta culpa é do próprio público. Quando eu era adolescente, ia, muito mais, em um barzinho para prestigiar o trabalho de bandas de garagem que tocavam suas próprias composições, em meio a alguns covers. Hoje em dia, os bares só dão espaço aos projetos covers, pois é mais fácil lotar a casa.
Tem como mudar a situação?
Só quem pode melhorar essa situação é o próprio público que consome as músicas, seja de forma física ou digital. Mas na realidade, para nós isto não importa muito. As novas bandas devem se concentrar em produzir um trabalho bem elaborado e nunca desistir. Acredito que “música boa” se faz por prazer, por gostar e não para conseguir vender. Para mim, como músico, é mais prazeroso ter um público seleto, que realmente gostou do meu trabalho de forma espontânea, procurou, conheceu, do que ter legiões de fãs que seguiram um “modismo” e, no dia de amanhã, mal lembrarão que um dia eram fanáticos por você.
Josiane Dalmagro